domingo, 14 de dezembro de 2014
Desabafo
O coração, intranquilo.
As letras, a tela que revela inadmissíveis realidades.
As pessoas, ludibriadas em falsas verdades.
O corpo, que não se convence.
A dor, o gosto, o sal....
Doces e Muros
O leite condensado é um doce. E o tempo, é inexorável. Era 2004. Um cinema pequeno, perto do mar. Eu, sómais uma pessoa que ocupava suas cadeiras. Na tela, o leite condensado. Doce,como beijos curiosos e lambuzados trocados entre o trio de menina e meninosprotagonistas do filme. O filme é Machuca, de Pedro, Pedro Machuca. Era 1973. Era o Chile, ano do golpe militar. O doce, condensado, não consegue segurar o muro. A separação por diferenças sociais atinge com aviolência de fuzis, botas e intolerância a eles, e a todos nós. E entre todosos nós, nenhum desfeito, nem os de açúcar. Talvez os de sangue e lágrimas. Era 2004, e em instantes o ano de 1973 desfila opressor, cinza. Eu coro, e devo chorar também vermelho. Amenina e seu pai morrem. Ambos comunistas, como diz o bom soldado, e também pobres, como digo eu, e você também. Nesse momento, o menino impotente diante da cena,voa dali .. “Não sou daqui, moro em outro bairro”. Você já esteve num bairro parecido como esse de1973, cheio de barracos de papelão? E brigadeiro? Você Já comeu? De repente, era 2013. Área continental de SãoVicente, litoral sul do estado de São Paulo, América Latina, 40 anos depois. Era junho. Nos noticiários da noite anterior a pauta eram as manifestações que ficaram conhecidas como jornadas de junho. ..mas às sete da manhã, andando por ali se chega perto do mangue. Na esquina, há lugar no qual que servem café e almoço a 0,50 centavos e um real. Você já esteve num bairro desses? Um grupo de adolescentes conta efusivamente sobre anoite anterior. Mas a palavra não é jornada, tampouco manifestação. O vocábulo correto é confusão. Eram meninos e meninas, num ritmo alucinado de vozes e tons: “um monte de gente, era um alvoroço, e eu nãoentendi nada.”....“tavam na rua principal, quebraram o mercado, eu corri”....“ah eu tava junto, a gente ficou com medo, eu fiquei na rua aqui detrás”..”veio a polícia, eles nunca vem aqui atrás, mas ontem eles entraram, deram tiros, eu saí correndo.”...” fiquei em casa, eu, escondida”.... “ah, eu fui lá e consegui pegar leite condensado da prateleira, por isso foi legal.” “ah, eu fui lá e consegui pegar leite condensado daprateleira, por isso foi legal.” “ah, eu fui lá e consegui pegar leite condensado daprateleira, por isso foi legal.” Foi legal? É, ,,, foi, peguei um monte de latas.“Minha mãe vai fazer muitos doces, eu tenho vontade.““Minha mãe vai fazer muitos doces, eu tenhovontade. “Os ecos não saem do corpo. São ecos de vontades. Ecos de botinadas. Como tiros, como doces .
Nascimento do Moreno
Preparar um relato de nascimento de João Moreno foi uma tarefa inspiradora, difícil e de reencontro. Passeando entre fotos, músicas e escritos de 2006 achei essa carta que escrevi para ele quando ele tinha 02 meses....a carta nunca foi terminada, mas me vi impelida a publicá-la porque essa vida merece poesia. Claro que hoje seriam outras palavras a serem escritas, mas cada momento tem belezas e durezas únicas. Gratidão à Bruna Leite pelo convite que me
possibilitou reconectar e acordar o sublime e o sagrado sempre no feminino, à
Enrico Watanabe por ser meu companheiro ainda de sacralidades e por entender
loucuras tantas e ao próprio menino João Moreno, porque eu fico mais bonita quando estou ao seu lado.
Filho:
Não sei se um dia eu terminarei uma carta para alguém que eu amo tanto, e que está
apenas começando a viver. São palavras, meu amor, palavras apenas, mas que podem salvar, a meu ver, sempre. Penso que escrevo tanto para mim quanto para ti.
Amanhã você faz dois meses, mas parece que está há tanto tempo conosco, que já nem sei
se sei viver sem você. Realmente, é um amor com A maiúsculo.
Você tem o sorriso mais lindinho que já vi, faz um biquinho irresistível antes de
chorar para pedir colo, e dorme como quem conversa com anjos. Semana
passada você deu uma risada mesmo, a primeira de muitas meu querido, porque até
onde depender de mim você terá uma vida alegre, pelo menos farei de tudo para
que ela seja alegre e bela dentro de você, e seu pai com certeza fará também.
Não repare se escrevo algumas bobagens, é a primeira vez que escrevo para meu
filho. Ainda grávida pedi para seu pai um caderninho, porque queria te contar a história de
você, com penduricalhos coloridos, fotinhos, e muita poesia.....mas eu não
preenchi o caderno. Ficou tudo tão guardado em mim que faço agora repassar meu
sentimento para o papel na brisa da madrugada senão eu explodo de tanto, tanto
amor.
O dia em que você nasceu foi o dia que marcou minha vida, depois do dia em que
contei que estava grávida para seu pai, o que significou que você passou a
existir para nós. Te ver nascer, ver sua primeira manifestação de vida ali, naquela sala de
cirurgia, ao nosso lado foi a prova cabal da vida em si, em todos os sentidos.
TUDO. Todas as sensações, todos os pensamentos, todas as cores, tudo o que os
cinco sentidos pode perceber, tudo o que percorremos, em absoluto, todo amor
estava ali, em mim, em você, no seu pai. Ecoou pelas paredes. Era o segredo da
vida que experimentamos em raros momentos, como no seu início, na sua primeira
(interrupção pq vc acordou com fome rsrsrsrsrs, vou dormir depois q vc terminar
de mamar)...................
https://www.youtube.com/watch?v=JfEOhvi3hYg
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